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JOSÉ GOMES FERREIRA (1900-1985)
Embora cultor de géneros vários, como a crónica o “diário inventado”,
a narrativa de carácter memorialístico ou ficcional, o texto dramático
breve, José Gomes Ferreira destacou-se sobretudo como poeta. Como
“poeta militante”, assim havia de ficar conhecido, apesar de nem
toda a sua produção poética se poder situar na linha da poesia
dita de “intervenção”. Habitualmente conotado com o Neo - Realismo,
cujos pressupostos teóricos lhe seriam caros, não é propriamente
um escritor dessa geração, mais nova em idade; mas também não
poderá ser incluído, sem reservas, na Presença, a geração
que cronologicamente lhe corresponderia, como nos recorda João
Gaspar Simões. Se é certo que, a dada altura do seu percurso,
o poeta revê processos líricos anteriores, de cariz mais intimista
e neo – romântico, mostra preocupações convergentes com as do
movimento neo – realista (…)
(…) É ainda formado no magistério literário de Raul Brandão, o
autor de Os Pobres, o escritor que olhou revoltado, mas
enternecidamente, para os pobres e miseráveis deste mundo – mesmo
antes de o Neo-Realismo fazer deles o tema preferencial ( a bem
dizer, único) da sua produção literária – por quem nutre uma profunda
admiração. Assim, conquanto se declare, em A Memória das
Palavras, simpatizante de “tudo o que cheirasse a vanguardismo
e modernidade”, não é a primeira geração modernista que
o atrai, mas “o genial poeta de A Farsa, de Os
Pobres e do Húmus, em que os componentes
do grupo ( o seu grupo de amigos de juventude) encontravam não
só o Espanto, a Caricatura, o Absurdo, o Desumano e o desvario
do planeta circundante mas também a Fraternidade e a Revolução
Inverosímil imanente”.
Desde os seus primeiros poemas, apesar
de estes evidenciarem um lirismo mais centrado no eu individual,
começa a esboçar-se a concepção do poeta como alguém que se sabe
com uma missão a cumprir no mundo e de que o outro que com ele
no quotidiano se cruza teria de ser o beneficiário. Daí a manifesta
responsabilidade para com o homem, seu semelhante, e, não raro,
a expressão de um sentimento de culpa ou remorso pelos males alheios
ou o dedo acusador apontado não só à sociedade (…)
(…) José Gomes Ferreira deixa de ver na evolução o quadro estereotipado
de flores, passarinhos e águas tranquilas, para a metaforizar
em agressividade e protesto ou a culpabilizar pela impassibilidade
ante o sofrimento alheio. Deixou de si a imagem de escritor crítico,
inconformado e lúcido, de uma lucidez também revelada no modo
como vigia a sua própria escrita e se autocensura.
In: Biblos - Enciclopédia Verbo das Literaturas de Língua Portuguesa
– 1995
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