Ela era filha dum rei, Chamada dona Maria: Amava um capitão Pelo bem que ele lhe queria. Seu pai, tanto que o soube
Dava-lhe tanta má vida, Dava-lhe o pão por onça, E a agua por medida. Mandou botar um pregão Por toda a cidade acima: Calafates, carpinteiros Se ajuntassem nesse dia, Para fazer uma nau
Para ir dona Maria. Calafates eram muitos, Deram-na feita num dia: Meteram-lhe mantimentos Para sete anos e um dia, Deitaram-na nesses mares Sem vela nem remaria. Dona Maria foi nela,
Só, sem a mais companhia. Chegou lá a uma terra Onde gente não havia, Senão um ermitão santo Que vida santa fazia.-- Quem te trouxe aqui, mulher, Para me perder em vida? Estando o rei à janela
À hora do meio-dia, Vira entrar uma nau, Sem vela nem remaria. -- Dizei-me que nau é aquela, Que entra sem licença minha? --É vossa filha senhor, Chamada dona Maria. |