Luís Guerreiro |
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Olá, Bem vindos a este "cantinho" do CD-ROM Não é fácil para mim falar do Luís Guerreiro que eu sou, no entanto aqui vai...
Nasci em Lisboa a 15 de Dezembro de 1964 - segundo histórias, no primeiro dia na maternidade, colocaram-me numa daquelas grandes mesas (grande para um recém nascido) e o Luís que já tinha algumas mossas da nascença (a cabeça
estava um pouco deformada se bem entendem), resolveu rebolar na dita mesa quase arrastando outra minúscula criatura que feliz ou infelizmente também veio ao mundo naquele dia (isto não tem nada ver com o nome Guerreiro - acho eu).
Bem mas como o espaço não é o de um DVD (quando é que a gente faz um ?) vamos falar de musica. Comecei nestas coisas da música quando fui morar em/para Alvor, tinha eu os meus doze anos. A família que na altura tinha um negócio
de roupas e outras coisas mais, estava mal de "massas" (percebem, faltava o "pilim"). O Luís armado em pescador/mariscador lá foi para o rio (correctamente é ria mas em Alvor chamamos-lhe rio), apanhar uns
"borgões" (berbigões - para a próxima comprem um dicionário de calão ou de Alvoreiro) e, com um saco de "borgões" numa mão e uma balança de cozinha na outra, lá ia a pé para Portimão a ver se ganhava uns
"trocados", tudo isto porque o dito rapazinho queria ser músico (como se isso fosse algo importante - tipo doutor, etc. e tal). Enfim à custa dos bivalves e de outros trocos lá consegui comprar uma guitarra por duzentos e
cinquenta "paus" um favor que o meu amigo Marcelino (um grande musico) me fez. Junto com a guitarra veio um papelzinho com meia dúzia de acordes (uma espécie de chinesice com bolinhas e quadradinhos) e o Luís lá começou a
gastar os dedos. Entretanto a música florescia por outros lados e o Luís ouviu dizer que na rua onde morava , o filho da Dona Chica, na mercearia da esquina, o Fernando Guerreiro, também arranhava umas cordas de vez em quando. Ás
duas por três lá começaram os dois numas "james" (uma espécie de "algazarra" colectiva) com uns amigos Cabo-Verdianos que tocavam mornas e merengues. Enfim, as coisas começaram a aquecer e a Dona Chica emprestou
uns "trocados" para o Luís comprar uma viola baixo, aqui começou a guerra com a vizinhança por causa do basqueiro que a gente fazia com um amplificador de trinta wats (os putos e as meninas de hoje tem hi-fi's dez vezes
mais potentes - ainda bem que é assim). O primeiro grupo, a tocar em bailes para pagar a aparelhagem, chamava-se "Galáxia", a seguir veio a "Banda Treta" que durou uns belos aninhos e precisava de um livro
para relatar as peripécias que um grupo de rapazes mais ou menos endiabrados cometeram. Entretanto e sempre para pagar mais umas quantas válvulas, uns quantos transístores, vidros partidos, cordas, pensos para os dedos,
microfones, "jacks", cabos, palhetas, pneus furados, viola baixo, viola acústica, misturadora de 12 canais, viola de 12 cordas, cavaquinho, braguesa, ferrinhos, pandeireta (se não quiserem ter o trabalho de ler esta lista
passem a seguir*), harmónicas, casamento, sanfona, Fender, baixo de 5 cordas, consulta no psiquiatra, misturadora de 16 canais, amplificador de baixo, teclado de 750 contos, garrafas de whisky, cordas e mais cordas, divórcio, etc.
e tal, *o Luís foi tocando por ai em sítios mais ou menos menos obscuros (tem a ver com a iluminação dos locais e não só) como aquele "cabaret" com meninas e tudo onde com os seus treze aninhos, este vosso amigo teve que
tocar uns quantos meses para pagar mais uma mão-cheia de instrumentos (vida de musico). Do cabaret para os hotéis foi um salto e se pensam que nos hotéis não há meninas e também uma espécie de meninos alternativos, pois
enganam-se - há de tudo um pouco e muitas vezes pior do que a gente pensa (mas deixemo-nos de remorsos). Isto de tocar em hotéis acaba por ser uma treta quando a gente quer evoluir e o Luís depois de vários convites resolveu dar um
salto até ao estrangeiro e visitar a velha Europa convencido que ia encontrar ali o caminho para o sucesso (enfim não foi tão mau como isso mas...). Seis horas da manhã , depois de dois dias de autocarro pela Espanha, França e
Bélgica enfim chegamos a Amesterdão, "Central Station", carregados de violas ,cavaquinhos, acordeão, etc., o Luís e o Aníbal. A primeira impressão foi de estar no meio duma cena surrealista ou num filme feito por um
louco, aquilo era uma espécie de acampamento de gente enrolada em mantas e sacos de plástico negros, como se não houvesse água naquele país (grande percentagem da Holanda fica abaixo do nível do mar), e uma espécie de circo
circulava à nossa volta - uma tipa cuja idade era difícil de definir, passou a correr nua da cintura para baixo, enfiou-se pela bilheteira dentro perseguida por um ciclista com os cabelos no ar (uma espécie de Einstein holandês),
passado pouco tempo um outro tipo, em Francês, pediu-me lume, como eu não fumava na altura, perguntei ao Aníbal se podia resolver o "embròglio" e qual não é o nosso espanto quando nos virámos para o dito cujo fumador e o
tipo estava literalmente, a dormir em pé. Tudo isto e mais alguns estranhos acontecimentos, duraram mais ou menos uma hora até que o dono do hotel chegou para nos levar.
Na Holanda (segundo dizem alguns holandeses) tudo é possível. Desde tocar música tradicional portuguesa para promover vinhos espanhóis até participar num programa de televisão, animando um mestre do xadrez recebendo massagens
para uma maratona de vários dias para o "Guiness Book", participar em festas de natal para comunidade portuguesa e para os espanhóis também, tocar num bar cheio de "motards" barbudos e pensar que - "se eles
não gostarem da música..." Mas nem tudo foram rosas (ou tulipas), durante os meses que passámos em tournée também tivemos que lavar pratos e até raspar umas quantas paredes na construção civil, é que isto de ser músico não é
o negócio mais bem pago do mundo e quando voltámos a Portugal os bolsos vinham mais vazios do que fomos para lá. Mas para continuar a minha participação neste excelente esforço da Inforarte para divulgar a nossa música e cultura
continuemos a falar do "artista" Luís Guerreiro que por acaso sou eu (isto de me apelidar de artista faz parte da profissão e nada mais). A música é sem duvida uma coisa de loucos, para um homem, às vezes deve ser a
única semelhança a uma mulher dar à luz, é que isto de fazer música não dói só nos dedos nem nas costas, também dói cá dentro, mas deixemo-nos de lamurias que a gente quer é divertir-se e já que eu não tive tempo para compor ou
arranjar mais uns quantos barulhos para este CD pelo menos escrevo aqui umas quantas palavras para vos manter entretidos enquanto escutam a viagem dos sons. Depois Da Holanda foi a Bélgica e a Venezuela os países onde toquei nos
mais variados locais, algumas vezes em duo outras com a nossa "Banda Treta" que esteve perto de ser um grande grupo a nível nacional mas os moços andavam a pensar noutras coisas e a coisa foi-se. Depois foi tocar a solo
ou em pequenos grupos, pelos bares e hotéis para sobreviver, neste momento, escrevo-lhes da Inglaterra onde espero aprender mais um bocadinho do mundo onde vivemos. Com isto tudo já lá vão vinte e poucos anos e até que enfim que
gravei qualquer coisa, foi só um bocadinho duma música mas já é qualquer coisa e foi um prazer, não vos chateio mais divirtam-se e até para o próximo episódio. Já agora visitem o meu site na internet. Contactos: Luís Guerreiro
E-Mail: |
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